Relatos em primeira pessoa da repressão venezuelana
VEJA conversou com três estudantes que participaram de protestos e testemunharam a violência crescente do Estado venezuelano
Na
quarta-feira, 18, a oposição da Venezuela convocou passeatas em vinte
cidades para pedir um referendo revogatório, um recurso constitucional
que permite encurtar o mandato dos presidentes. Na capital, Caracas, os
manifestantes cobravam do CNE (Conselho Nacional Eleitoral) celeridade
para iniciar o processo, que já conta com as assinaturas necessárias. No
estado de Mérida, estudantes e funcionários da Universidade dos Andes
(ULA) fecharam ruas próximas à faculdade para exigir aumento no salário
dos professores. Todos foram violentamente reprimidos. VEJA conversou
com três estudantes que participaram desses protestos. Seguem os
relatos.
Gerardo Subaran, 18, estudante de direito da ULA (Universidade dos Andes), em Mérida
"O protesto começou na faculdade de Medicina, onde os alunos
haviam fechado as ruas próximas. De repente, começaram a chegar
motoqueiros armados por todos os lados, que nós chamamos de colectivos.
Eles avançaram e nós, com receio, recuamos para dentro da universidade.
Em pouco tempo, a guarita de segurança estava totalmente destruída.
Disparos de armas e pedras nos fizeram recuar ainda mais. Os colectivos
roubaram uma moto que estava estacionada e atearam fogo nos veículos da
faculdade, o que fez com que parte do auditório ficasse em chamas.
Quando pensamos que tudo iria se acalmar, eles impediram que os
bombeiros entrassem para controlar o fogo. Quando entraram na faculdade,
nós saímos correndo. Quando vimos um barranco, nos jogamos lá e ficamos
escondidos até que pudéssemos sair. A maioria dos que nos atacaram
estava encapuzada ou de capacete. Alguns tinham bonés com a imagem de
Che Guevara ou estavam com camisetas vermelhas. Eles andavam todos
juntos e estavam apoiados pelos policiais. São todos adeptos do regime.
Cumprem ordens do governador de Mérida, que é chavista"
Marco González, 23 anos, estudante de direito da ULA e representante do movimento estudantil 100% Estudantes, em Mérida
"O protesto começou pacificamente, pela manhã. Participavam dele
funcionários da administração, alunos, professores e até gente que faz
parte das obras. A polícia chegou dizendo que tínhamos que abrir espaço,
senão eles iriam agir. Dissemos que não o faríamos, já que o movimento
era pacifico, e que eles deveriam deixar-nos protestar por duas horas,
como estava previamente combinado. Então, um grupo de policiais tentou
dispersar os protestos com bombas de gás lacrimogêneo. Nós tentamos
levar os professores e os mais velhos para dentro da universidade,
protegendo-os. Nesse momento, vimos alguns amigos sendo atingidos pelas
bombas. Quando chegaram os simpatizantes do governo, o clima ficou ainda
mais tenso. Eles começaram a nos agredir e nos ameaçaram com armas de
fogo. Entre quinze a vinte pessoas foram feridas com balas de borracha
ou de chumbo. Eu mesmo levei oito no meu corpo: cinco no abdômen e três
na perna"
Hasler Iglesias, 24, Presidente da Federação dos Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela, em Caracas
"Permanecemos na Avenida Libertador durante meia hora sem que
houvesse grandes tumultos. Quando os dirigentes do protesto começaram a
avisar a todos os manifestantes que a marcha estava encerrada e todos
começamos a nos retirar, a repressão começou. A polícia, então, avançou,
tratando de empurrar os manifestantes. Jogaram bombas de gás
lacrimogênio, dispararam balas de borracha e de chumbo e lançaram gás de
pimenta. Os manifestantes se dispersaram. Recebi alguns golpes pelos
escudos dos policiais, nada grave, mas vi um senhor que teve a cabeça
ferida por uma bomba de gás lacrimogêneo" (VEJA)
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